Do uso técnico ao uso crítico: desafios da formação docente na cultura digital

O PBL 11 trouxe para o centro do debate uma questão que está longe de ser nova, mas que continua urgente: como preparar professores para usar as tecnologias digitais de forma crítica, ética e pedagogicamente intencional? A situação apresentada pela professora Maria Betânia evidenciou uma problemática recorrente nos cursos de licenciatura, o domínio técnico das ferramentas digitais não garante, por si só, a transformação das práticas pedagógicas. Muitos licenciandos chegam à universidade sabendo operar plataformas e aplicativos, mas ainda reproduzem, por meio delas, os mesmos modelos tradicionais de ensino que sempre conheceram.

A partir dessa problematização, os grupos se reuniram para discutir a temática e elaboraram nove perguntas que, apesar dos diferentes ângulos, convergiram para três grandes eixos de reflexão: o desenvolvimento de competências docentes para além do uso instrumental das tecnologias; a compreensão das tecnologias como fenômenos sociais, políticos e pedagógicos; e os desafios curriculares e institucionais para integrar essas demandas de forma real nos cursos de licenciatura.

As três questões centrais e suas respostas, embasadas na fundamentação teórica revisada, são detalhadas a seguir: 

1.  Como as Diretrizes Curriculares Nacionais e os referenciais teóricos abordam o uso crítico, ético e inovador das Tecnologias Digitais na formação de professores?

A Resolução CNE/CP nº 4/2024 (BRASIL, 2024) estabelece que o desenvolvimento das competências digitais deve estar associado à formação ética, crítica e cidadã dos futuros docentes, incorporando as tecnologias de maneira contextualizada e pedagogicamente significativa. Os referenciais teóricos analisados corroboram essa perspectiva. Custódio e Rodrigues (2023) defendem que a formação docente deve possibilitar a compreensão crítica das tecnologias e de seus impactos sociais e culturais, reconhecendo que elas não são neutras, mas carregam valores e intencionalidades. Vanegas, Yasbely e Morrás (2025) apontam que as competências digitais abrangem dimensões técnicas, pedagógicas, éticas e comunicacionais, exigindo uma formação integrada. Brien (2025) acrescenta que o desenvolvimento profissional contínuo é essencial para que os professores transformem as tecnologias em instrumentos de inovação pedagógica. Assim, tanto as diretrizes quanto os autores convergem para a necessidade de uma formação que vá além do domínio técnico e promova o uso consciente, ético e transformador das tecnologias digitais.

2.  Quais contradições podem ser identificadas entre o que as políticas propõem e o que é colocado para os professores em formação?

Embora as políticas educacionais defendam uma formação voltada para o uso crítico e inovador das tecnologias, a realidade observada em muitos cursos de licenciatura ainda revela práticas centradas na aprendizagem operacional das ferramentas digitais. Existe, portanto, uma contradição entre o discurso presente nas políticas e as experiências efetivamente vivenciadas pelos estudantes durante sua formação. Odelski, Giraffa e Casartelli (2019) alertam que a presença de tecnologias nos ambientes educacionais não garante mudanças pedagógicas significativas, e Brien (2025) destaca que formações pontuais e descontextualizadas tendem a produzir resultados limitados. Outra contradição refere-se à exigência de competências digitais complexas sem que sejam oferecidas condições adequadas de infraestrutura, acompanhamento pedagógico e integração curricular. Scherer, Siddiq e Tondeur (2019) reforçam que fatores como apoio institucional e percepção de utilidade influenciam diretamente a forma como os professores se relacionam com os recursos digitais disponíveis.

3.  O que precisaria mudar na formação docente, nas práticas pedagógicas e nas políticas educacionais para promover um uso crítico, mediado e inovador das tecnologias digitais?

 A promoção  de um uso crítico e    inovador das    tecnologias   digitais   requer   mudanças articuladas em diferentes níveis. Na formação docente, é necessário fortalecer a integração entre teoria e prática, ampliando experiências que permitam aos futuros professores planejar, aplicar e avaliar estratégias pedagógicas mediadas por tecnologias, incorporando discussões sobre ética digital, cidadania e cultura digital (CUSTÓDIO; RODRIGUES, 2023). Nas práticas pedagógicas, torna-se necessário superar metodologias centradas na transmissão de conteúdos e investir em abordagens que favoreçam a participação ativa, a colaboração e a investigação. No âmbito das políticas educacionais, é essencial garantir infraestrutura adequada, formação continuada e mecanismos de acompanhamento que valorizem não apenas o acesso às tecnologias, mas principalmente a qualidade de sua integração aos processos educativos (BRASIL, 2024; BRIEN, 2025; VANEGAS; YASBELY; MORRÁS, 2025).

As reflexões realizadas evidenciaram tensões entre as políticas educacionais, os currículos de formação e as práticas pedagógicas desenvolvidas nos contextos educacionais. Dando continuidade ao percurso de estudo e análise, será elaborado um mapa cartográfico com o objetivo de representar visualmente os territórios da formação docente e do currículo, bem como as linhas duras, flexíveis e de fuga que atravessam esses espaços. 


Referências

BRASIL. Resolução CNE/CP nº 4, de 29 de maio de 2024. Define as Diretrizes Curriculares Nacionais para a Formação Inicial em Nível Superior de Profissionais do Magistério da Educação Básica. Brasília: MEC, 2024.

BRIEN, D. Desenvolvimento profissional docente e tecnologias digitais. 2025.

CUSTÓDIO, J. F.; RODRIGUES, M. A. Formação docente e tecnologias: perspectivas críticas. 2023.

ODELSKI, M.; GIRAFFA, L. M. M.; CASARTELLI, A. O. Inovação pedagógica e tecnologias digitais na formação de professores. 2019.

SCHERER, R.; SIDDIQ, F.; TONDEUR, J. The technology acceptance model (TAM): a meta analytic structural equation modeling approach to explaining teachers' adoption of digital technology in education. Computers & Education, v. 128, p. 13-35, 2019.

VANEGAS, C.; YASBELY, M.; MORRÁS, A. Competências digitais docentes: dimensões e desafios formativos. 2025.


Comentários

  1. Olá, Elenildo!

    Seu mapa apresenta uma leitura interessante do caso da professora Maria Betânia e evidencia as tensões existentes entre políticas educacionais, formação docente e práticas pedagógicas.

    Ao observar a representação, fiquei refletindo sobre a proposta da cartilha em relação aos territórios. Você optou por organizar o mapa a partir das categorias "linhas duras", "linhas leves" e "linhas de fuga". Como você relaciona essas linhas aos territórios de Formação e Currículo propostos na atividade?

    Parabéns pela proposta!

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    Respostas
    1. Ao organizar os mapa nas três linhas, acabei deixando os territórios de Formação e Currículo implícito. Mas a relação que concebi entre eles é a seguinte:
      As linhas duras estão no território do Currículo, as prescrições, a fragmentação das TD como disciplina isolada, as políticas sem suporte real.
      As linhas flexíveis estão exatamente na fronteira entre os dois territórios, onde Maria Betânia negocia, que os licenciandos transitam entre o uso técnico e o reflexivo, que modelos como TPACK e TAM tentam fazer a ponte.
      As linhas de fuga partem do território da Formação, quando ela consegue escapar do que o currículo prescreve e aposta na formação contínua, na colaboração, na ética digital.
      Reconheço que o mapa poderia ter deixado essa relação mais visível. Fica o aprendizado: na cartografia, os territórios não são cenários prontos, eles se produzem no próprio ato de traçar as linhas.

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